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DE CARA COM ELA

Costanza Pascolato fala sobre mulheres, moda e a idade

 

 

Por Jorge Grimberg

 

A mídia global tem criticado muito a cantora Madonna e seu comportamento provocativo – aos 57 anos – e a comparou com a cantora Annie Lenox, que estaria ‘envelhecendo com dignidade’. O que você acha disso?

Acho que o que incomoda as pessoas é a atitude de Madonna de querer incomodar, que está fora de moda. Mais do que o escândalo de estar com a bunda de fora. É uma atitude daquela época em que ser rebelde era sempre uma atitude bacana. Madonna não quer envelhecer de jeito nenhum! A Annie Lennox assumiu a maturidade dela a bastante tempo e só aperfeiçoou o que ela faz melhor, que é cantar. No fundo, a deselegância nada mais é do que uma coisa fora do lugar.

Mas existe um jeito certo de envelhecer? Ao meu ver, parece que a Madonna só está querendo ser ela mesma…

Madonna é sem limites em termos de possibilidades financeiras e tem acesso a tudo. Não estou dizendo que o comportamento é correto ou não. Annie foca naquilo que ela sabe fazer, que é cantar. Não é só a roupa que interessa. O que interessa é a atitude dela e o que ela fez para transformar a música em algo contemporâneo e elegante. Na música, ela acrescentou algo novo em relação ao que a gente já conhecia, com uma nova versão de uma canção antiga. O sucesso para mim é aquilo que ensina alguma coisa. A Annie fez algo novo ali e aprendemos algo.

E o que Madonna poderia fazer de diferente? 

A Madonna poderia encontrar uma maneira mais sutil de provocar e não imitar o que ela mesma fazia há 30 anos. Você tem que ter outras ferramentas e outras estratégias para surpreender e chocar do mesmo jeito. Ficou decadente e datada a maneira como ela fez isso.

Existe idade para a moda? 

No último mês, fiquei 25 dias em Nova York sozinha e foi uma experiência muito boa. Eu percebi que a moda para mulheres maduras é uma nova questão do mercado. Os emergentes, como Brasil e Rússia, que estavam dando força ao mercado de luxo nos EUA, estão dando para trás. Mesmo a China não é o que era antes. Uma das possibilidades para esse segmento é conversar com a mulher mais velha, mas falta muito ainda para as marcas falarem de verdade com a mulher madura. Além disso, as mulheres mais velhas muitas vezes preferem gastar mais em viagens e tratamentos do que em moda. Elas nem sempre investem em roupas e acessórios.

Você acha que as mulheres acima de uma certa idade devem evitar expor pele e ter um comportamento mais contido?

É o que eu faço comigo mesma. Eu fiz esse cabelo, esse estilo. A Annie fez isso e é reconhecível a primeira vista e não precisa ficar olhando detalhes. A Madonna toda semana faz alguma coisa no corpo ou no rosto. Mas é diferente comparar uma mulher do entretenimento com uma mulher da vida real. Elas são fora da realidade. Elas podem servir de modelo para algumas pessoas, mas não para as pessoas da vida normal. Nenhum de nós tem que seguir um modelo ou outro porque nossa existência não exige tudo isso. Como imagem, até pode ser interessante, mas o julgamento é mais conteúdo e menos aparência. Hoje em dia é mais legal para uma mulher não ficar frustrada ir para um caminho de tratamentos modernos, sim, que sejam muito mais saudáveis do que radicais. O Brasil nos anos 80 e 90 foi um exagero de tratamentos radicais.

Mas os tratamentos melhoraram muito. Hoje em dia tem lazer para tudo!

Não adianta os métodos melhorarem e se aperfeiçoarem. As pessoas tem que ter a noção de medida. Se você ficar confortável, você adquire um equilíbrio que o deixa muito menos infeliz. Tem gente que fica alucinada. Umas ficam lindas e outras nem tanto. Eu tenho encontrado com amigas antigas e todas tem um lábio refeito, barriguinha que não sai do lugar e uma ansiedade nessa coisa da estética jovem. Tanto que todo mundo acaba bebendo ou procurando outras coisas pra suprir essa ansiedade. O que seria normal é uma harmonia entre o ser e o parecer. Esse é o grande lance. Que também é a formula da elegância suprema. Mostrar um equilíbrio entre aquilo que você é o que você parece.

As decisões não são fáceis. Com o passar do tempo é um desafio buscar um equilíbrio entre personalidade e elegância. Você acompanhou o caso recente de Renée Zellweger, que apareceu em um evento com outra fisionomia?

A Renée ficou com a cara do Brasil dos anos 80. Daquela época em que se que se puxava pele. A única vantagem da Madonna – que eu acho – é que ela pelo menos faz procedimentos com o the best. Então nunca é demais. É tão bem feito que você demora para entender. Tudo que ela fez é muito bom. Ela tem uma noção tão importante da imagem dela, que ela nunca fez coisas que deram um choque imediato. Ela parece conservada no formol.