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À LA GARÇONNE

Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza falam sobre começar de novo, o novo cenário da moda e o futuro | por Jorge Grimberg

 

ENTREVISTA GENTILMENTE CEDIDA POR JORGE GRIMBERG | PUBLICADA ORIGINALMENTE EM JG03.COM.BR

 

Vamos começar falando desse desfile do SPFW: a segunda coleção da À La Garçonne. A primeira coleção foi um divisor de águas na carreira do Alexandre, explorando essa história de reciclagem, de repensar materiais. Isso é algo muito à frente da indústria e é um movimento que todos querem se conectar.

 

Fabio Souza A empresa nasceu em 2009 como um comércio de roupas vintage – um brechó, basicamente.

As pessoas começaram a gostar muito da decoração da loja e passaram a pedir móveis. Eu comecei, introduzindo aos poucos e, de repente, migrou para uma loja de móveis vintage e importados. Quando vi, a moda tinha se tornado apenas 10% do meu faturamento. Eu acabei abandonando, mas aí quando o Alexandre se desligou da marca Alexandre Herchcovitch, eu já tinha uma ideia de fazer a À La Garçonne com roupas novas. Moda mesmo. Eu convidei ele para fazer. Ele não aceitou de primeira. Ensaiou uns três dias: “será que é isso?” Aí ele topou e a gente começou quarenta dias antes do último desfile! Dentro da minha casa. Não tinha nenhum funcionário. A gente saiu correndo e contratou uma pilotista, minha sogra se envolveu, começou a procurar oficinas para ajudar a gente, a maioria das peças foram feitas dentro de casa mesmo. E o direcionamento meu para o Alexandre foi para a gente usar o vintage mesmo, não só a inspiração, como o reuso mesmo, e usar os materiais reciclados, porque a marca fala disso, a marca fala sobre reuso. Não é só, “porque é bacana ter um antiquário”. É bacana reciclar. É bacana reusar, então esse é o espírito da marca: não desperdiçar.

 

Fábio, você tem um olhar que transforma um móvel antigo em novo pelo contexto da loja. Fica tão estiloso, que fica tão novo.

Alexandre Herchcovitch Sim, e aí quando a gente fez o desfile, eu tinha cinco jaquetas perfecto vintage, eu resolvi pintar à mão, eu falei “vamos pintar essas peças aqui e vamos ver no que dá” – a gente encomendou para um artista, mas o Fabio que desenhou os motivos de corda, ele desenhou na peça e foi desenhado em cima.

FS É, eu desenhei e o artista pintou com tinta o meu rabisco com giz. Aí a gente tinha cinco jaquetas e o Maurício Ianês [stylist] gostou e resolveu colocar no desfile. Vendemos 120 jaquetas, de cinco que eu tinha.

Quando acabou o desfile, eu tive que sair correndo para poder atender a demanda

 

Mas vocês já começaram nesse clima de see-now buy-now?

FS Como era a primeira coleção a gente tinha essa opção, e estava nascendo o see-now buy-now no mundo. A gente falou “bom como a gente está começando uma marca nova, vamos começar ela dessa maneira” então foi fácil para a gente, perto das empresas que tem que se modificar. A gente já começou com o espírito assim e a gente não conseguiu fazer “now”, mas a gente lançou na loja um mês após o desfile.

AH A gente fez see-now buy-now com as peças únicas do desfile, à venda na loja no dia seguinte, e a Costanza [Pascolato] foi a primeira cliente. Ela comprou duas dessas jaqueta, duas das cinco jaquetas que tinhamos.

FS E aí acho que em quinze, vinte dias a produção já começou a chegar. É legal porque a marca também vê como uma resposta do espírito do tempo, a gente está vivendo uma época tão imediatista e uma marca que nasce já com esse espírito, mesmo que ela já tenha uma história.

 

O que vocês sentiram depois da primeira coleção que a gente vai ver agora refletindo na segunda?

AH A gente teve mais tempo agora. Não 45 dias, porque a gente desfilou em abril e então agora a gente vai desfilar em outubro, e teve esse tempo todo. A gente amadureceu todos os aspectos da marca, como o mix de produtos. Conseguimos fazer mais roupas novas com tecidos antigos ou 100% reciclados, mais customizações, mais vintage, e é uma coisa que eu mesmo estou tendo que abrir minha cabeça com o direcionamento do Fabio, porque quando a gente tem uma infinidade de roupas prontas para colocar no desfile, sendo que a maioria delas é vintage, eu digo: “nossa mas vamos fazer um desfile de roupas vintage” e então o Fabio, “não, você tem que se desprender, você tem que olhar a roupa como ela é” porque para hoje, você tem disponível para vender no mundo roupas antigas, roupas usadas, roupas novas, todo tipo de roupas.

FS Você pega a roupa vintage, desmancha e transforma e outra, pega dez camisas e monta uma. Você pega um tecido que está estocado em uma tecelagem há dez anos, você tem possibilidades infinitas.

AH É um exercício de liberdade, para mim como criador, para o Maurício, stylist, para o próprio Fabio, que é o empresário que toca a marca. Estamos indo a fundo e temos que aprender.

FS O maior desafio que eu proponho para o Alexandre como estilista e para o Maurício, como stylist, é o desapego das velhas fórmulas, de falar assim “experimenta, tenta, não tem regras, tira as regras” – Acho que a gente está fazendo isso em tudo da nossa vida.

AH O nosso pensamento hoje quando criamos qualquer peça é: vamos usar o que temos em casa de matériaprima.

Por exemplo, se vamos desenhar uma calça preta: o que nós temos de tecidos pretos? A primeira coisa é acabar com o que tem dentro. Se a gente precisar comprar no mercado, a gente vai nas tecelagens e, antes de ver o que tem nas coleções novas, a gente vê o que elas têm em estoque do mais antigo para o mais novo.

Quando a gente vai comprar aviamentos, botões, o que a gente tem de botão aqui, dá pra usar? Dá, não dá? A gente vai e compra num lugar de botões. Chegamos lá e perguntamos: o que você tem de estoque? Começamos a ver a matéria-prima pela mais antiga que foi produzida para a mais recente. Esse é o raciocínio. Esse é um processo criativo totalmente diferente. Você já começa pensando em economia circular.

AH Estamos falando muito sobre esse assunto – diariamente – desde que a gente começou. Estamos tendo que nos aprofundar um pouco mais, porque não é porque começamos assim entendemos com propriedade sobre reuso. Estamos juntos com todo mundo. Aprendendo. Mas está sendo ótimo e um exercício criativo violento, porque a gente tem que trabalhar com coisas que estão prontas. Você tem que olhar para uma peça e ter o discernimento e falar: não, essa peça não precisa modificar nada, ela já está pronta, vamos por ela assim na arara, ou assim no desfile, ou não essa peça, vamos trocar os aviamentos, vamos pintar, vamos trocar o forro. Cada uma você tem que pensar individualmente.

 

Esse é o primeiro São Paulo Fashion Week oficialmente sem estação, a edição número 42. O vocês vão desfilar?

AH A gente sempre vai ter tudo misturado. Não pensamos em estação. Tem parka de alto inverno. A gente trabalha com a coleção que a gente tem vontade de fazer.

 

E qual é a estratégia comercial de agora? O que vocês vão ter logo depois do desfile?

AH O desfile vai acontecer 10:30h na Segunda, 24, no domingo, 23, a gente vai mudar a loja toda para a coleção nova. Quando for 13hs do dia 24, a loja abre toda com a coleção nova. As peças do desfile entram no máximo dois dias depois. É o tempo de cadastrar, etiquetar. É um processo em torno de logística. Não dá tempo de sair do desfile e vir para cá, mas no dia seguinte já vai estar disponível, porque tem muita peça única.

 

E nessa temporada vocês tem colaborações criativas para a coleção? Como tiveram na passada com a Hering?

AH Sim, muitas. São sete empresas por enquanto, porque a nossa ideia é a seguinte: na Alexandre Herchcovitch, há quinze anos eu vinha desenvolvendo os licenciamentos com empresas grandes e eu sempre tive um trabalho de parceria fortíssimo com todo mundo. Eu usei a minha expertise. Obviamente que a marca tem seis meses, porém eu tenho expertise de vinte e três anos. É bom isso. Quer dizer, bom e ruim. Você tem seus vícios também. As empresas parceiras estão super abertas, porque são empresas grandes, enormes: Hering para malharia, Colombo com alfaiataria, Converse com os tênis, Di Cristalli com os sapatos, Hector Albertazzi com alta bijouteria, camisaria Humberto Pascuini e tecidos reciclados Ecosimple.

Esse movimento das parcerias é global e facilita no processo do imediatismo. Eu acho que as pessoas estão buscando uma individualidade que vocês estão oferecendo. Faz sentido nos dias de hoje. A história de tirar a estação e trabalhar o imediato, é um movimento de criar uma relevância de novo para moda. Algo que se perdeu. As próprias editoras de moda falam “eu não quero dar esse vestido que há seis meses atrás todo mundo já viu” As pessoas querem o right now. Online e offline.

AH A nossa maior busca hoje, a coisa que fica na minha cabeça, é que as pessoas aceitaram o que a gente fez. O desafio agora é como você dar continuidade e ter escala.

E se a gente tiver um pedido de 500 unidades daquele moletom pintato à mão? Porque a gente já teve pedidos de mais de 100 peças. Se a gente abrir dez multimarcas, a gente vai vender. Por enquanto, vendemos em três lojas. O plano do Fabio é internacionalizar. À partir de fevereiro, vamos ter um showroom em Nova York.

 

Como é para o Alexandre mudar a maneira de sempre criar imagens de passarela para criar imagens para a vida real?

FS O Alexandre estava acostumando com essa imagem forte, de usar essa roupa para frente, de falar do amanhã. Eu digo que a ALG é comercial não porque ela é básica, mas porque eu quero a identificação do consumidor. Eu quero que ele se identifique com aquele look. Eu não gosto da sigla see-now buy-now. Gosto de pensar no que as pessoas querem vestir agora e oferecer isso, oferecer um conceito de moda que as pessoas vão entender. Eu acho que essa é a grande mudança, as pessoas querem entender.

 

E eu acho que essa coisa que eu senti de vocês de que pra mim foi uma informação nova é que imediatismo não é só um feeling de como eu vou fazer da passarela pra realidade. Existe o lado do criador, de pegar os elementos que vocês tem e fazer acontecer imediatamente. A ideia de não ficar esperando lançar estação.

AH E aí que de repente a gente tem que ver como vai ser isso quando isso se espalhar um pouco mais no Brasil, no mundo, como vai ser isso, é uma equação boa para resolver. E uma coisa também que a gente decidiu fazer é dar muita continuidade aos temas das peças até os assuntos se esgotarem. Então as pessoas perguntam: vocês vão continuar os com desenhos de corda? Vamos!

Até esgotar. Provavelmente a gente vai trabalhar muito isso ainda.

 

FS Isso é uma coisa bem diferente da marca que o Alexandre dirigia, porque o Alexandre era conhecido, por cada temporada fazer o oposto, o choque, a ruptura.

Como se ele mudasse de cliente a cada temporada.

 

Vocês estão trabalhando em família na marca e, além disso, vocês criaram um album de família no Instagram, o #familiaherchcovitchsousa. Na minha opinião, é um dos melhores usos de hashtag que eu já vi. Como é para vocês trabalhar em família?

AH Eu acho difícil trabalhar em família. Eu trabalhei a vida inteira em família, com a minha mãe e meu irmão, e, o que eu sinto, é que eu tenho um defeito que as minhas explosões acontecem com quem está mais próximo de mim. E isso é um problema que tem que estar na nossa cabeça sempre.

FS Eu fui aprendendo a lidar com isso. Aqui é trabalho. É um exercício muito interessante separar. Para isso existir, precisa haver um esforço de separar as coisas. Agora a questão do álbum de família no Instagram é porque eu sempre fui muito militante. Eu sou muito militante, minha vida inteira, porque tem gente que é assassinada por ser gay. Tem gente que acha que o filho do gay não tem o direito de estudar no colégio onde seu filho estuda.

AH Ah, é triste, a gente não sofre isso não.

FS A gente não sofre isso, mas isso existe. Quando eu fui matricular meu filho num colégio careta, mais tradicional, eu visitei vários, mas eu escolhi um mais tradicional, a diretora me mostrou que o colégio estava aberto, ela estava disposta. Para eles, era muito importante ter uma família como a nossa dentro da escola.

AH A minha resposta à sua pergunta é que eu sou muito real no meu Instagram. Eu fotografo o que eu acho bonito, o que eu estou vendo. Eu vejo meus filhos 24 horas por dia. Eu vivo para eles, então eu vejo uma cena e eu fotografo. No começo a gente não mostrava o rosto deles, mas com o tempo, fomos nos soltando e percebemos que isso ajudou muita gente. Temos contribuído com várias pessoas que tem nos procurado com a questão de adoção.

AH Muitas pessoas querem conversar sobre isso. Educar os filhos é grande responsabilidade. Quando me perguntam sobre ser pai eu chamo para vir lá em casa e passar uma tarde com a gente. Somos uma família como qualquer outra.